O Catatau foi escolhido pelo júri do The Bobs (concurso internacional sobre Blogs) como um dos 10 melhores blogs sugeridos para concorrer à final do prêmio " Melhor Blog em língua portuguesa".
Só de estar nessa lista (junto a outros blogs de peso) já é uma grande
alegria. Haverá um prêmio do júri, e outro prêmio do voto dos leitores.
Caso o leitor se interesse pela votação, basta dar uma olhada por aqui.
Pois os deuses percebem os fatos futuros;
os homens, os já ocorridos; os sábios, os que se aproximam.
- Filóstrato, Vida de Apolônio de Tiana, VIII, 7 -
Os homens conhecem os fatos que ocorrem no presente
Os futuros, os conhecem os deuses,
plenos e únicos possuidores de todas as luzes.
Dos fatos futuros os sábios captam
aqueles que se aproximam. Seus ouvidos,
por vezes, em horas de meditação se
conturbam. O misterioso rumor
lhes chega dos acontecimentos que se aproximam.
E atendem a ele, piedosos. Enquanto, rua afora,
nada escutam os povos
- Constantine Cavafy -
tradução/traição: nomade-z
 | [DRAFT] capa | Feb 12, '06 9:43 PM for everyone |
Quando você começar sua viagem a Ítaca, deseja que a estrada seja longa, cheia de aventura, plena de conhecimento. Os Lestrigonianos e os Ciclopes, O odioso Poseidon - não os tema: Você nunca os encontrará em seu caminho, se seus pensamentos permanecerem elevados, se uma fina emoção tocar seu espírito e seu corpo. Os Lestrigonianos e os Ciclopes, O feroz Poseidon você nunca irá encontrar, se você não os carregar junto à tua alma, se tua alma não os dispor acima de ti.
Peça para que a estrada seja longa. Que as manhãs de verão sejam muitas, quando, com cada prazer, com cada alegria, você entrará em portos vistos pela primeira vez; pare em mercados fenícios, e adquira fina mercadoria, âmbares e ébanos, pérolas e corais, e perfumes voluptuosos de toda espécie tão voluptuosos quanto você conseguir; visite muitas cidades Egípcias, para aprender e aprender com os sábios.
Sempre tenha Ítaca em sua mente. Chegar lá é seu último destino. Mas não aprece a viagem, contudo. É melhor deixá-la perdurar por muitos anos; e ancorar na ilha quando você estiver velho, rico com tudo o que ganhou no caminho, sem esperar que Ítaca lhe ofereça riquezas.
Ítaca deu a você uma linda viagem. Sem ela você poderia ter nunca saído a caminho. Nada mais ela tem a lhe dar.
E se você encontrá-la pobre, Ítaca não o decepcionou. Sábio como há se tornado, com muita experiência, você já terá compreendido o que Ítaca significa.
- Constantine Cavafy -
tradução/traição: nomade z
Sou totalmente contra o desarmamento obrigatório, principalmente num
país como o Brasil. Não se deve projetar os temas, medos e ideais da
classe média em toda a sociedade, o problema é um pouco mais embaixo,
diz respeito a que tipo de 'cidadão' queremos, e se nossa sociedade
corresponde a esse tipo de 'cidadão'.
Com certeza, há um
desnível abissal, entre o 'cidadão' que queremos, e as condições que
lhe fornecemos para, na melhor das hipóteses, definir-se como cidadão,
como aquele que livra-se das necessidades e tem o mínimo de voz ativa.
Em
tudo isso, a escolha por ter ou não uma arma de fogo é muito mais
substantiva, muito mais "democrática". Não moramos na Inglaterra ou no
Japão, onde uma população desarmada garante minimamente suas
necessidades. O aumento da violência não é a causa dos problemas, mas
seus sintomas, e isso não pode ser desconsiderado, e evitado com uma
medida de interditar escolhas.
Se vivemos em grandes cidades
onde quase tropeçamos em casas de papelão, e olhamos com medo para
todos os lados, com certeza nosso medo está diretamente relacionado a
essa condição paupérrima que vemos ao nosso redor todos os dias até
mesmo com certa familiaridade. A violência é apenas efeito disso, dessa
familiaridade que deixa as coisas como estão, e não se põe à ação
efetiva. E é por isso que votarei "não", pois o desarmamento não
abafará nada. Esse é o verdadeiro problema; o resto é tema de classe
média ("arma é segurança no lar?"), tema de indivíduos que cometem
crimes passionais, erros, acidentes, descuidos e assim por diante.
Ao menos é minha opinião.
Sobre a questão da abstenção
Dado que esse referendo busca simplificar questões muito mais
estruturais e complexas na mera decisão entre "sim" e "não", é
atraente, para buscarmos escapar a essa simplificação, a opção da
abstenção. O "sim" e o "não", em relação a essas questões estruturais,
nada resolvem. O 'não' deixa as coisas como estão; o 'sim' interdita
possíveis decisões, talvez reduza a violência nas famílias de classe
média e os crimes passionais, mas em nada possibilita as mudanças
verdadeiramente necessárias, e a solução dos verdadeiros problemas.
Diante disso, talvez a escolha mais interessante talvez possa ser a
abstenção. Ato tão político quanto o 'sim' e o 'não', o quão ignaras
ignorantes, ou doutas ignorantes, possam ser essas últimas decisões.
Mas o grande problema é que a abstenção não ganhará o referendo (caso
tivesse chances, com certeza me absteria). E, entre as alternativas
políticas existentes entre o "sim" e o "não", a interdição do 'sim' é
mais prejudicial às almejadas 'mudanças' do que deixar as coisas como
estão. Li alguns textos de inspiração marxista, a respeito do
referendo, e concordo com o que enunciavam sobre a abstenção. Concordo
com esse valor, mas gosto muito de lembrar um pequeno poema de Paulo
Leminski:
en la lucha de classes
todas las armas son buenas
piedras, noches, poemas
Um dia monótono é seguido por outro monótono e idêntico dia. As mesmas coisas acontecerão, e tornarão a acontecer - os mesmos momentos nos encontram e partem.
Um mês passa e traz outro mês. Pode-se facilmente adivinhar o que vem; são as mesmas coisas fastidiosas de ontem. E a manhã se completa sem parecer mais manhã.
- Constantine P. Cavafy - Tradução/traição: nomade z
06 Outubro 2005
- Abu Graib é "fichinha"
| Soldados norte-americanos posando junto a corpo carbonizado Já faz um bom tempo que vi, antes do escândalo de Abu Graib,
uma série de fotos da guerra. Não tenho mais o link daquelas fotos.
Nelas, podiam-se ver corpos carbonizados junto a veículos de guerra.
Nada além de cenas de batalha, nada parecido com Abu Graib. Mas a
partir de uma reportagem do Observatório da Imprensa,
seguindo os links apresentados por Carlos Castilho, só fica a sensação
de que os acontecimentos ocorridos em Abu Graib são simplesmente
"fichinha".
Acompanhando os links do OI, chego aos comentários, aos títulos, e às fotos do nowthatsfuckedup.com.
O site é de pornografia, mas há vários tópicos dedicados à divulgação
de fotos da guerra, com sugestivos títulos e comentários. Fiquei
simplesmente sem reação ao ver e ler:
- Suicide bomber (this is one of the most gruesome pages on the entire site) - Just got back from the sand box (this is also one of the worst pages) - Warning this is some hard core shit (and it is) - Die Haji Die - Cooked Iraqi - Name this body part - Nice puss - bad foot - Destruction of the Afghans - Gotta respect the head shot - Iraqi tried to run checkpoint - This is disgusting
A foto acima, da série "cooked iraqi" (vinculada no americablog), mostra bem o tom da "brincadeira".
Mas o mal-estar não se resume à terrível sensação de ver as fotos e ainda ler os títulos (como o "nice puss, bad foot") e comentários.
Em nossos tempos, as "boas consciências" que mostram que até mesmo
fenômenos climáticos são intimamente relacionados aos níveis de
consumo, essas boas consciências que vão a palestras e lêem livros de
receitinhas de "gurus" como Fritjot Capra, pouco refletem sobre o quanto cada
ação individual e cotidiana - alardeada por elas mesmas como
'libertadoras' - diz
respeito à manutenção de mentiras e guerras.
Enquanto
isso, deixemos na cabeça a assinatura do usuário "One leg at a time"
("uma perna por vez", nick de um provável soldado), do nowthatsfuckedup.com. Ao dizer, sobre o iraquiano carbonizado, que a paz no mundo não é conquistada em apenas uma noite, conclui:
We´re all animals here Flesh and blood Bone and dream We´re just impulses here Just another piece of shit
|
Dizes: "Irei a outra cidade, irei a outro mar. Outra cidade será encontrada, melhor que essa. Todo esforço meu é condenado pelo destino; e meu coração está - como um cadáver - sepultado. Até quando nesse marasmo permanecerá meu espírito. Para onde quer que volte meus olhos, para onde posso mirar Vejo aqui as obscuras ruínas de minha vida, Onde passei tantos anos, a arruinei e desperdicei"
Novas terras você não irá encontrar, você não encontrará outros mares. A cidade irá seguir você. Vagarás pelas mesmas ruas. E nos mesmos bairros te farás idoso, nessas mesmas casas envelhecerá. Sempre você chegará nessa cidade. Para outra cidade - não espere - não há barco, não há caminho. Assim como você arruinou sua vida aqui nesse pequeno lugar, no mundo inteiro está destruída.
- Constantine Cavafy - (tradução/traição: nomadez)
Consta abaixo uma tradução preliminar
do final da Tese Complementar de Michel Foucault, defendida junto à
Tese Principal sobre a história da loucura, em 1960. A tese
complementar contém 126 páginas datilografadas, e pode ser
visitada apenas no Centro Michel Foucault, em Paris.
Há três versões on-line da tese, retiradas do mesmo arquivo, que foi desdobrado em três revisões: a primeira, está no site www.oestrangeiro.net ; a segunda, no site www.michel-foucault.com , e a terceira, está no www.generation-online.org . A presente tradução é da versão do oestrangeiro.net .
FOUCAULT,
M. (1961) Introduction à L'Anthropologie
de Kant. Thése complémentaire, 2 Vol. Dactylographiés. Paris, Sorbonne,
1961. Capturada no site O
Estrangeiro (www.oestrangeiro.net), em abril de 2005; no site Foucault
Resources (http://www.foucault.qut.edu.au
), em maio de 2005; e no site Generation on line (http://www.generation-online.org )
em tradução à língua inglesa por Arianna Bove.
Qualquer que seja seu conteúdo empírico, a Antropologia tem portanto
uma estrutura epistemológica que lhe é própria. Ela porta um sentido
que não se sobrepõe nem aos "Tratados do Homem" nos quais o estilo, ao
menos, permanece ainda na obediência cartesiana, nem aos empirismos que
pendem sempre sobre o pensamento de Locke. Sem dúvida, como os
primeiros, ela [a Antropologia ] é um saber de linguagem da natureza, e
como os outros, uma atribuição do originário. Mas esses não são senão
momentos nessa estrutura epistemológica total. Esta em efeito se
equilibra ao redor de qualquer coisa que não é nem o animal humano, nem
a consciência de si, mas o Menschenwesen, isto é, por sua vez, o ser natural do homem, a lei de suas possibilidades, e o limite a priori de seu conhecimento. É aí que se esconde a ambiguidade desse menschen-Kenntniss
pelo qual se caracteriza a Antropologia: ela é conhecimento do homem,
em um movimento que o objetiva, ao nível de seu ser natural e no
conteúdo de suas determinações animais; mas ela é conhecimento do
conhecimento do homem, em um movimento que interroga o sujeito ele
mesmo, sobre seus limites, e sobre o que o autoriza no saber que toma
de si.
A Antropologia acreditava pôr em questão um setor da natureza; ela
colocava de fato uma questão que faria reportar sobre a filosofia de
nossa época toda a sombra de uma filosofia clássica doravante privada
de Deus: poderia haver um conhecimento empírico da finitude? O
pensamento cartesiano, embora tenha extremamente cedo, e desde a
experiência do erro, encontrado essa finitude, não teria sido
contornado definitivamente senão a partir de uma ontologia do infinito.
Quanto ao empirismo, ele praticava essa finitude, e a contornava sem
cessar, mais como limite de si mesmo do que como fronteira do
conhecimento. A interrogação antropológica tem sentido diferente:
trata-se para ela de saber se, ao nível do homem, poderia existir um
conhecimento da finitude, suficientemente liberado e fundado, para
pensar essa finitude nela mesma, isto é, na forma de sua positividade.
É aí que intervém a grande retomada de lugar [remise en place] operada
por Kant. Em efeito a estrutura interna da Antropologia e a questão
que, secretamente, a anima tem a mesma forma que a interrogação crítica
ela mesma; há nela uma pretenção de conhecer as possibilidades e os
limites do conhecimento; ela imita exteriormente e nesses gestos da
empiricidade o movimento de uma Crítica; e o que há de dado nela parece poder funcionar como um a priori.
Por muito tempo, os "antropólogos" acreditaram poder [p. 34] acolher
sem dificuldade, nem reversão de pensamento, a lição kantiana: Schmid,
Hufeland, Ith, não são senão os primeiros testemunhos de uma lista que
poderia ser longa e não terminaria no século XVIII. Falta mesmo a
resistível ingenuidade de nossos contemporâneos para celebrar na Antropologia a ultrapassagem
enfim assegurada das dissociações onde ter-se-ia perdido a indiferença árida [sécheresse] do racionalismo - alma e corpo, sujeito e objeto. Então na maravilha dessa
reconciliação, eles não reencontrariam senão o milagre, pouco
surpreendente, de sua surdez ao equívoco gramatical do Menschenkenntniss.
De fato, no momento onde se crê fazer valer o pensamento crítico no
nível de um conhecimento positivo, se esquece o que haveria de
essencial na lição deixada por Kant. A dificuldade de situar a
Antropologia em relação ao conjunto crítico, deveria ter sido
suficiente para indicar que essa lição não é simples. Ela diz, em todo
caso, essa lição, que a empiricidade da Antropologia não pode se fundar
sobre ela mesma; que ela é possível somente a título de repetição da
Crítica; que ela não pode por conseguinte envolver a Crítica; mas a que
não saberia faltar referir-se [mais qu´elle ne saurait manquer de s´y
référer]; e que se ela se figura como o análogo empírico e exterior, é na medida em que ela repousa sobre as estruturas do a priori já
nomeadas e atualizadas. A finitude, na organização geral do pensamento
kantiano, não pode por conseguinte jamais se refletir no nível de si
mesma; ela não se oferece ao conhecimento e ao discurso senão de uma
maneira segunda; mas ao que ela é constrangida a se referir não é uma
ontologia do infinito; é, em sua organização de conjunto, as condições a priori
do conhecimento. Isso quer dizer que a Antropologia se encontra
duplamente submissa à crítica: seja como conhecimento, às condições que
ela [a crítica] fixa e ao domínio da experiência que ela determina;
seja como exploração da finitude, às formas primeiras e não
ultrapassadas que a Crítica se manifesta. Assim compreendida, a
situação da Antropologia teria alguma semelhança com a dos Anfangsgrunde der Natur (Princípios da Natureza): atualizar o sistema de articulação entre a crítica e as formas a priori do
conhecimento de um lado, e de outro os princípios de um saber
empiricamente constituído, e historicamente desenvolvidos da Crítica.
Mas sob essa simetria de superfície reina uma profunda dessimetria: nos
Anfangsgrunde, está em questão a Física, e uma ciência assim constituída em sua plenitude e sua verdade; na Antropologia,
trata-se da Physis, isto é dessa camada de conhecimento em que se põe
em questão as imperfeições, as fronteiras, e as insuficiências:
resumindo, a negatividade ao nível da natureza. Em outros termos, da
Crítica aos Anfangsgrunde, a continuidade é assegurada pelas formas da atividade simétrica e o campo de verdade que ela funda e estrutura; da Crítica à Antropologia, a continuidade é estabelecida pela insistência comum de limites, e o rigor da finitude que eles indicam. Os Princípios da Natureza passam por Deus e tornam inútil a hipótese de um infinito atual, no qual a Crítica mostrou a contradição interna; a Antropologia
aponta o dedo à ausência de Deus, e desenvolve a si mesma no vazio
deixado por esse infinito. Lá onde a natureza dos corpos físicos diz
síntese, a natureza empírica do homem diz limite. O caráter recíproco e
inverso, essa simetria dissimétrica da síntese e do limite
estão sem dúvida no coração do pensamento kantiano: é deles que a
Crítica tem seus privilégios a respeito de todo conhecimento possível.
É tempo, agora, de retornar a nosso problema de partida - o
acompanhamento da Crítica por um ensinamento antropológico, o monótono
contraponto pelo qual Kant dobrou o esforço de uma reflexão
transcendental por uma constante acumulação de conhecimentos empíricos
sobre o homem. Que, durante 25 anos, Kant tenha ensinado a
Antropologia, há outro sentido sem dúvida que as exigências de sua vida
universitária; essa obstinação está ligada à estrutura mesma do
problema kantiano: como pensar, analisar, justificar e fundar a
finitude, numa reflexão que não passa por uma ongologia do infinito, e
não se esgota mais sobre uma filosofia do absoluto? Questão que é
efetivamente a obra da Antropologia, mas que não pode ter nela suas
dimensões verdadeiras, pois ela não pode refletir-se por si mesma em um
pensamento empírico. Aí reside o caráter marginal
da Antropologia em relação ao empreendimento kantiano: ela é por sua
vez o essencial e o não-essencial [l´inessentiel], - essa borda
[bordure] constante por respeito à qual o centro é sempre deslocado,
mas que sem cessar reenvia a ele e o interroga. Pode-se dizer que o
movimento crítico é libertado
da estrutura antropológica: por sua vez porque ela a desenharia do
exterior, e porque não tomaria seu valor senão se libertando dela,
retornando-se contra ela, e, por aí, a fundando. A configuração
epistemológica própria à Antropologia imitaria a Crítica; mas se
trataria de não ser mais tomada por esse prestígio, e de restituir a
essa semelhança uma ordem racional. Essa ordem consistiria em fazer
gravitar a Antropologia ao redor da Crítica. E essa ordem restabelecida
seria para a Antropologia a forma autêntica de sua liberação, a
colocação ao dia de seu verdadeiro sentido: ela poderia aparecer então
como o que anunciaria a passagem do a priori ao fundamental, do pensamento crítico à filosofia transcendental.
Vê-se em qual rede de contra-sentidos e de ilusões a Antropologia e a
filosofia contemporânea comprometem uma em relação à outra. Ora
desejou-se fazer valer a Antropologia como Crítica, como uma crítica
liberada dos prejuízos e do peso inerte do a priori;
portanto que ela não poderia dar acesso à região do fundamental se
permanecesse sob a obediência de uma Crítica. Ora desejou-se
estabelecer (e essa não é senão outra modalidade do mesmo esquecimento
da Crítica) o campo de positividade onde todas as ciências humanas
encontrariam seu fundamento, e sua positividade; enquanto que de fato,
ela não poderia falar senão a linguagem do limite e da negatividade:
ela não deve ter por sentido senão o de transmitir do vigor crítico à
fundação transcendental a presença da finitude. Ao nome do que é, isto
é, do que deve ser segundo sua essência a Antropologia no todo do campo
filosófico, resta recusar todas essas "antropologias filosóficas" que
se dão como acesso natural ao fundamental; e todas essas filosofias nas
quais o ponto de partida e o horizonte concreto são definidos por uma
certa reflexão antropológica sobre o homem. Aqui e lá se exerce uma
"ilusão" que é própria à filosofia ocidental depois de Kant. Ela faz
equilibrar, em sua forma antropológica, a ilusão transcendental que
recebia a metafísica pré-kantiana. É por simetria e se referindo como
um fio diretor que se pode compreender em que consiste essa ilusão
antropológica.
É que com efeito uma deriva historicamente da loutra, ou mais
precisamente é por um adormecimento/deslize [glissement] de sentidos da
crítica kantiana da ilusão transcendental que a ilusão antropológica
pôde nascer. O caráter necessário da aparência transcendental tem sido
mais e mais frequentemente interpretado não como uma estrutura da
verdade, do fenômeno e da experiência, mas como um dos estigmas
concretos da finitude. O que Kant designava nela, de uma maneira bem
ambígua como "natural" [naturel], foi esquecido como forma fundamental
da relação com o objeto e recuperada como "natureza" [nature] da
natureza humana. A ilusão, por consequência, ao invés de ser definida
pelo movimento que a criticaria em uma reflexão sobre o conhecimento,
teria sido referida a um nível anterior onde ela apareceria por sua vez
desdobrada e fundada: ela [a ilusão] se tornaria verdade da verdade, -
o ponto a partir do qual a verdade estaria sempre lá e jamais dada; ela
se tornaria assim a razão de ser e o fundo da crítica, o ponto de
origem do movimento pelo qual o homem perde sua verdade e sem cessar se
encontra retomado nela [rappelé par elle]. Essa ilusão definida agora
como finitude se tornaria por excelência o recuo [retraite] da verdade: isso em que ela se esconde e em que sempre se pode a reencontrar.
É nisso que a ilusão antropológica é, de um ponto de vista estrutural,
como o inverso, a imagem em espelho da ilusão transcendental. Esta
consistiria em aplicar os princípios do entendimento fora dos limites
da experiência, e portanto a admitir um infinito atual no campo do
conhecimento possível, por meio de uma transgressão espontânea. Ora, a
ilusão antropológica reside em uma regressão reflexiva que deve dar
conta dessa transgressão. A
finitude não é jamais ultrapassada [dépassée] senão na medida em que
ela é outra coisa que ela mesma e onde ela repousa sobre um abaixo [sur
un en deçà] onde ela encontra seu fundo; esse abaixo [en deçà], é ela
mesma, mais o redobramento do campo da experiência onde ela se experimenta
[éprouve] sobre a região do originário onde ela se funda. O problema da
finitude perpassa desde uma interrogação sobre a finitude e a
transgressão, a uma interrogação sobre o retorno a si; de uma
problemática da verdade a uma problemática do mesmo e do outro. Ela é
adentrada no domínio da alienação.
E o paradoxo está nisso: liberando-se de uma crítica preliminar do
conhecimento e de uma questão primeira da relação com o objeto, a
filosofia não está liberada da subjetividade como tese fundamental e
ponto de partida de sua reflexão. Ela se encontra ao contrário fechada
[enfermée] dando-se como espessada [en se la donnant épaissie],
hipostasiadamente fechada [close] na insuperável [indepassable]
estrutura do " menschliches Wesen",
em que vela e se recolhe silenciosamente essa verdade extenuada que é a
verdade da verdade. Pode-se então compreender porque em um único
movimento característico da reflexão de nossa época, todo conhecimento
do homem se dá como dialetizado de entrada de jogo ou dialetizável de
pleno direito, - portanto, em todo caso, um sentido onde está em
questão o retorno ao originário, ao autêntico, à atividade fundadora, a
isso pelo qual há o mundo das significações; e toda filosofia se dá
como podendo comunicar com as ciências do homem ou as reflexões
empíricas sobre o homem sem desvio por uma crítica, uma epistemologia
ou uma teoria do conhecimento. A Antropologia é ese caminho secreto
que, através das fundações de nosso saber, religa por uma meditação não
reflexiva a experiência do homem e a filosofia. Os valores insidiosos
da questão: Was ist der Mensch?
são responsáveis por esse campo homogêneo, desestruturado
[déstructuré], indefinidamente reversível onde o homem dá sua verdade
como âmago de toda verdade. As noções polimorfas de "sentido", de
"estrutura" e de "gênese" - quais que sejam o valor que elas poderiam
ter e que seria justo de as restituir em um pensamento rigoroso -
apenas indicam para o instante a confusão do domínio onde elas tomam
seu domínio de comunicação. Que elas [essas noções] circulam
indiferentemente em todas as ciências humanas e na filosofia, isso não
funda um direito a pensar como de um único modo aqui e lá, mas assinala
unicamente a incapacidade que temos de exercer contra essa ilusão
antropológica uma verdadeira crítica.
E no entanto dessa crítica recebemos o modelo desde mais de meio século.
O empreendimento nietzscheano poderia ser entendido como ponto de
acordo enfim dado à proliferação da interrogação sobre o homem. A morte
de Deus é um efeito manifesto de um gesto duplamente mortífero que,
pondo um fim ao absoluto, é ao mesmo tempo assassino do próprio homem.
Pois o homem, em sua finitude, não é separável do infinito no qual ele
é por sua vez a negação e o arauto; é na morte do homem que se completa
a morte de Deus. Não seria possível conceber uma crítica da finitude
que seria liberada igualmente em relação ao homem e em relação ao
infinito, e que mostraria que a finitude não é termo, mas essa
curvatura [courbure] e o nó do tempo onde o fim é o início
[commencement]?
A trajetória da questão: Was ist der Mensch? no campo da filosofia termina na resposta que a recusa e a desarma: der Ubermensch.
Em meio ao temor e às suspeitas com espírito agitado e olhos apavorados nos consumimos e planejamos como fazer para evitar o iminente perigo que tão terrivelmente nos ameaça. E assim nós erramos, ele não estava em nossos caminhos: falsas eram as mensagens (ou não as escutamos, ou não as entendemos bem). Outra catástrofe, que nunca imaginaríamos, repentina, fulminante, cai sobre nós e despreparados - não há mais tempo - nos arrebata.
Abaixo, consta tradução (livre) de
trechos de uma longa entrevista feita por Foucault a Ducio Trombadore,
ao final de 1978. O critério de seleção das passagens foi o das
escolhas de Foucault pelos pensadores de inspiração nietzscheana, e os
contra-pontos entre esses pensamentos e o da filosofia acadêmica dos
anos 50, que servia de referência ao pensamento francês de então.
No final, consta a bibliografia.
[p.
42]Eu não me considero filósofo. O que faço não é nem uma maneira de
fazer filosofia, nem de sugerir aos outros que a façam. Os autores mais
importantes que me, não direi formaram, mas permitiram destacar-me de
uma formação [p. 43] universitária, foram pessoas como Bataille,
Nietzsche, Blanchot, Klossowski, que não eram filósofos no sentido
institucional do termo, e um certo número de experiências pessoais,
certamente. O que me deixa mais golpeado e fascinado neles, e que deu
essa importância capital para mim, é que seus problemas não eram o da
construção de um sistema, mas de uma experiência pessoal. Na
universidade, pelo contrário, eu tinha sido treinado, formado,
empurrado à aprendizagem dessas grandes maquinarias filosóficas que se
chamavam hegelianismo, fenomenologia...
(...)
A
experiência do fenomenólogo é, no fundo, uma certa maneira de pôr um
olhar reflexivo sobre um objeto qualquer do vivido, sobre o cotidiano
em sua forma transitória, para extrair as significações. Para
Nietzsche, Bataille, Blanchot, ao contrário, a experiência é tentar
chegar a um certo ponto da vida que seja o mais próximo do invivível
[l´invivable]. O que se requer é o máximo de intensidade e, ao mesmo
tempo, de impossibilidade. O trabalho fenomenológico, pelo contrário,
consiste em estender todo o campo de possibilidades ligadas à
experiência cotidiana. Por outro lado, a fenomenologia busca
restituir a significação da experiência cotidiana para reencontrar em
quê o sujeito que sou é efetivamente fundador, em suas funções
transcendentais, dessa experi~encia e de suas significações. Em
contrapartida, a experiência em Nietzsche, Blanchot, Bataille tem por
função arrancar o sujeito de si mesmo, de fazer em sorte que ele não
seja mais ele mesmo ou que ele seja levado à sua distruição ou à sua
dissolução. É um empreendimento de des-subjetivação.
A idéia de
experiência-limite, que arranca o sujeito de si mesmo, eis o que tem
sido importante para mim na leitura de Nietzsche, de Bataille, de
Blanchot, e que tem feito que, embora fastidiosos, também eruditos que
sejam meus livros, eu os tenho sempre concebido como experiências
diretas visando a me arrancar a mim mesmo, a me impedir de ser o mesmo.
(...)
[p.
48] Nietzsche, Blanchot e Bataille são os autores que me permitiram
liberar-me dos que dominaram minha formação universitária, no decorrer
dos anos 50: hegel e a fenomenologia. Fazer filosofia, então, como
ainda é hoje, significava principalmente fazer história da filosofia. E
se procedia, delimitada de um lado pela teoria do sistemas de Hegel e
de outro pela filosofia do sujeito, sob a forma da fenomenologia e do
existencialismo. em substância, era Hegel que prevalecia. Tratava-se,
de qualquer forma, para a França de uma descoberta recente, depois os
trabalhos de Jean Wahl e a lição de Hyppolite. Era um hegelianismo
fortemente penetrado de fenomenologia e existencialismo, centrado no
tema da consciência infeliz [conscience malheureuse]. E era, no fundo,
o que a Universidade francesa poderia oferecer de melhor como forma de
compreensão, a mais vasta possível, do mundo contemporâneo, à pena
saído da tragédia da Segunda Guerra e das grandes perturbações que a
tinham precedido: a revolução russa, o nazismo, etc. Se o hegelisnismo
se apresentava como a maneira de pensar racionalmente o trágico, vivida
pela geração que nos tinha imediatamente precedido, e sempre ameaçado,
fora da Universidade, era Sartr5e que estava em voga com sua filosofia
do sujeito. Ponto de reencontro entre a tradição filosófica
universitária e a fenomenológica, Merleau-Ponty desenvolvia o discurso
existencial em um domínio particular como o da inteligibilidade do
mundo, do real. Esse é o panorama intelectual que me fez amadurecer: de
um lado, não ser um historiador da filosofia como meus professores, e,
de outro, pesquisar qualquer coisa totalmente diferente do
existencialismo: essa tem sido a leitura de Bataille e de Blanchot e,
através delas, de Nietzsche. O que é que eles representam para mim?
Primeiro,
um convite a pôr em questão a categoria do sujeito, sua supremacia, sua
função fundadora. Depois, a convicção que uma tal operação não teria
nenhum sentido se permanecesse limitada às especulações; recolocar em
questão o sujeito significaria experimentar qualquer coisa que
conduziria à sua destruição real, à sua dissociação, à sua explosão, a
seu retorno em outra coisa.
(...)
[p. 49] Para mim, a política tem sido a ocasião de fazer uma experiência à la
Nietzsche ou Bataille. Para qualquer um que tinha vinte anos logo após
a Segunda Guerra mundial, que não tinha sido levado pela moral da
guerra, que poderia bem ser a política quando se tratava de escolher
entre a América de Truman e a URSS de Stálin? Entre a antiga SFIO e a
democracia cristã? Tornar-se um intelectual burguês, professor,
jornalista, escritor ou outro em um mundo parecido era intolerável. A
experiência da guerra nos tinha demonstrado a necessidade e a urgência
de uma sociedade radicalmente diferente daquela que vivíamos. Essa
sociedade que tinha permitido o nazismo, que tinha se curvado diante
dele, e que tinha passado em bloco ao lado de De Gaulle. Face a tudo
isso, uma grande parte da juventude franceça teve uma reação de
desgosto total. Desejava-se um mundo e uma sociedade não somente
diferentes, mas que teriam sido um outro nós-mesmos; desejava-se ser
completamente outro em um mundo completamente outro.
Igualmente
o hegelianismo que nos era proposto na universidade com seu modelo de
inteligibilidade contínua da história não estava à altura de nos
satisfazer. Assim como a fenomenologia e o existencialismo, que
mantinham o primado do sujeito e seu valor fundamental. Enquanto que
por outro lado o tema nietzscheano da descontinuidade, de um
super-homem que seria todo outro em relação ao homem. Seguidamente, em
Bataille, o tema das experiências-limite pelos quais o sujeito sai de
si mesmo, se decompõe como sujeito, aos limites de sua própria
impossibilidade, teria um valor essencial. Essa foi para mim uma
espécie de saída entre o hegelianismo e a identidade filosófica do
sujeito.
(...)
Em uma filosofia como a de Sartre, o
sujeito doa sentido ao mundo. Esse ponto não é posto em questão. O
sujeito atribui as significações. A questão seria: pode-se dizer que o
suejtio seja a única forma de existência possível? Não poderiam haver
experiências ao curso das quais o sujeito não seja mais dado, em suas
relações [p. 50] constitutivas, no que o identifica a si mesmo? Não
haveria portanto experiências nas quais o sujeito possa se dissociar,
quebrar a relação consigo mesmo, perder sua identidade? E não seria
isso a experiência de Nietzsche com o eterno retorno?
(...)
A
descoberta de Nietzsche se produziu fora da universidade. Em razão do
emprego que haviam feito os nazista, Nietzsche era completamente
excluído do ensinamento. Por outro lado estava muito em voga uma
leitura continuísta do pensamento filosófico, uma atitude de respeito
da filosofia da história que associava, em qualquer sorte, hegelianismo
e existencialismo. E, a dizer a verdade, a cultura marxista dividia
assim essa filosofia da história.
FOUCAULT, M. Entretien avec Michel Foucault
(281). «Conversazione con Michel Foucault» («Entretien avec Michel
Foucault»; entretien avec D. Trombadori, Paris, fin 1978), Il
Contributo, 4e année, no 1, janvier-mars 1980, pp. 23-84. In Dits et
Ecrits, vol. IV, p. 41-95. Paris: Gallimard, 1994.
Hoje (domingo) sem querer "flagrei"
uma pessoa bastante ansiosa, tentando terminar às pressas alguma
espécie de trabalho acadêmico ou escolar numa rede municipal de
internet grátis. Atentei por alguns momentos o texto que ela redigia, e
encontrei algumas idéias curiosas.
Em linhas gerais, o texto atentava sobre a importância de cultivar em
cada indivíduo uma idéia de "homem integral", ao mesmo tempo
"sábio" e com "grande discernimento", "força de vontade", e afins. O
"homem integral" seria o homem que "unisse" todos os coeficientes
conhecidos: QI, QE, QS (seria alguma espécie de inteligência social?) e
outros Q´s que não tenho nenhuma idéia do que possa se tratar. Mas se
deve em nossa sociedade haver cultivo do "homem integral", parece ser
por um motivo bastante preciso: para desenvolver o "universo
empresarial", dizia o texto da anônima redatora. O mundo das empresas
precisaria de "homens integrais" para ser bem gerido, como se o destino
da integralidade humana (e de toda humanidade?) fosse gerir empresas
que por sua vez gerem pessoas (de preferência, alguns podem dizer,
"integrais")
Curiosa situação, a do "homem integral", com sua integralidade
dependente do universo das organizações. O que é realmente curioso
quando atentamos trabalhos escolares como esse, ou quando conversamos
informalmente, ou quando olhamos ao redor e às vezes pegamos os nossos
próprios olhos "olhantes" de surpresa, é precisamente uma grande
máquina de captura subjetiva que cria a própria imagem longínqua de
"homens integrais", da qual somos de modo insistente cópia ou
simulacro.
 Algo que sempre me incomodou com os
profisisonais de "ciências humanas" em geral é a falta de objetividade
em suas avaliações. Quando digo "falta de objetividade", não estou me
referindo à ausência de métodos objetivos adequados emprestados das
outras ciências - isso pode ser relegado a outro debate. Porém, é
notável a ausência de procedimentos minimamente rigorosos (seja lá
quais forem) que permitam aos próprios analistas saberem por quê os
resultados foram colhidos de tal ou qual modo.
Para citar um exemplo, todo mundo já participou de alguma entrevista de
"RH", e presumo que cada leitor pode citar aos montes os casos em que o
"examinado" sentiu-se totalmente perplexo diante da falta de devolutiva
do "examinador". Simplesmente vamos às entrevistas, temos nossa
subjetividade dissecada diante de alguém que nunca vimos, e, caso
sejamos ou não "aprovados", raramente obtemos qualquer resposta sobre
os critérios da avaliação.
Diante da onda de faculdades "particulares" no Brasil - tal como há
alguns anos houve uma onda de lojas populares de R$ 1,99 -, não são
raros os casos de avaliações miraculosas, e às vezes, aprovações da
mesma ordem. Certa vez conheci o caso de uma professora que "avaliava"
seus alunos com base em suas respostas diante da apresentação de
algumas figuras, quase como num pretenso teste projetivo. Com uma
diferença, a de que as figuras não tinham relação com critérios
avaliativos - com o conteúdo ensinado ou a ementa da disciplina -, e o
critério de correção era nada mais que o dito "subjetivo".
Os casos podem pulular aos montes, e poderiam ser extendidos até mesmo
a algumas revistas ditas "científicas": sugere-se um artigo, e, caso
não seja publicado, não há resposta alguma.
Tudo isso faz lembrar o pastiche que Canguilhem faz do examinador,
considerando certas passagens de Stendhal (embora tais considerações
sejam a respeito de todo exame):
"A defesa do testado é a
repugnância de se ver tratado como um inseto, por um homem no qual ele
não reconhece nenhuma autoridade para lhe dizer o que ele é e o que ele
deve fazer. “Tratar como um inseto”, a palavra é de Stendhal que a toma de Cuvier.
E se nós tratássemos o psicólogo como inseto; se nós aplicássemos, por
exemplo, ao morno e insípido Kinsey a recomendação de Stendhal?"
Canguilhem
não busca, nesse texto, discutir a perícia ou imperícia do examinador,
mas sim a própria situação da psicologia como técnica de exame do homem
sobre o homem. Entretanto, tais casos - que se multiplicam a cada dia - não deixam de causar perplexidade.
Recebi num desses indesejáveis SPAM uma mensagem muito engraçada, de
uma compania de RH sem o menor escrúpulo de perguntar-me se gostaria de
receber suas informações. A propaganda é hilária, e, por incrível que
pareça, o "pocket training" é marca registrada. É isso aí, vamos seguir
adiante com as delícias do mundo empresarial! Reproduzo o texto da
propaganda abaixo:
Pocket
Training®
Pocket
Training® é um treinamento exclusivo da XXXXXXXXXXXXX. Em três horas, é dada uma visão geral do
tema a ser tratado, o que favorece o conhecimento
dos principais pontos, qualificando, assim, o
participante a atuar satisfatoriamente na área
abordada . Além de uma iniciação no assunto, serve
como atualização e reciclagem, para profissionais
mais experientes. É importante não confundir o
Pocket Training® com uma palestra , a metodologia
do Pocket é baseada na prática e no ensino
socrático , com dinâmicas, jogos, cases de impacto
e participação coletiva.
Esse é o
trabalho da XXXXXXXXXX, oferecer aos seus
clientes soluções que correspondam diretamente às
suas necessidades!
Fiquei com a maior curiosidade de saber o que seria um "ensino socrático", principalmente aliado a dinâmicas e " cases", e dentro de um pocket training. Estariam Sócrates e seus discípulos preocupados com nosso moderno mundo gerencial?
publicado em http://www.dialogica.com.ar/archives/004441.php
 Já fazem alguns dias que uma "misteriosa" propaganda começou a ser
veiculada na mídia televisiva brasileira. O mistério não se resume
apenas à propaganda em si mesma, mas à frequência em que ela tem
aparecido, e a nítida tentativa de ocultar a assinatura de seus autores
desde os primeiros dias em que foi exibida.
O vídeo tem fundo negro, mostra várias declarações de membros do PT
em campanha eleitoral, depois manchetes de jornal e revista que enfocam
o escândalo atual, e então sobrevém a frase: "PT e Lula: um péssimo exemplo para o Brasil".
A propaganda política, que nos primeiros dias de sua exibição não
foi assinada (no Brasil as propagandas políticas partidárias ao menos
em tese devem ser assinadas), a alguns dias, recebeu (também
misteriosamente) uma pequena marca d´água como assinatura. Quase não
pode ser percebida, já que é transparente sobre o fundo negro, mas para
quem olha atentamente, com alguma dificuldade consegue ler: "PFL". Com
o misterioso aparecimento da assinatura do partido, dificilmente vista,
pode-se ver - após toda a inicial dificuldade - que se trata de uma propaganda eleitoral, liberada para um partido de oposição que curiosamente busca velar sua própria identidade.
Curioso também é ver a frequência com que essa
propaganda aparece nos horários nobres. Mas é mais curioso ainda
perceber a atitude da assinatura, para quê serve, que sentido haveria
um partido político veicular uma propaganda com tom essencialmente
negativo, e em tese (já que a assinatura é quase imperceptível) não
assinada.
A atitude da assinatura - e o objetivo da propaganda - pode ser
percebida a partir da sensação que temos ao assistir esses vídeos: ao
ver figuras influentes do PT anunciando em campanhas eleitorais a
ausência de corrupção nesse partido, seguidas por anúncios de jornais
que contradizem os petistas mostrando o próprio escândalo atual, a
sensação é de indignação geral. Frente aos "Fulano diz", "Ciclano diz",
a sensação generalizada que temos de corrupção, reiterada seguidamente pela mídia, se confirma por esse estranho "panfleto".
Mas como se pode, de uma estrutura tão formal quanto o Partido da Frente Liberal,
admitir o panfleto não assinado (embora, muito discretamente, o seja)?
Embora tenha mudado a tática de sua propaganda política para marcar de
modo veemente sua oposição ao PT, a propaganda do PFL não é
deliberadamente assumida; talvez para demonstrar que o sentimento não é
apenas o do partido, mas o do povo - essa seria sua estratégia
política; mas talvez também para demonstrar que o PFL seria algo que,
isento de todo esse sentimento, proposse algo novo. Lembro-me que o PT
sempre assinou suas propagandas, com aquele vermelhão que por muito
tempo foi taxado (pela mídia?) de "radical"; mas e esses novos ventos
de propagandas não assinadas por partidos de velhos lobos que buscam
para si mesmos a imagem de serem ausentes de corrupção, o quê trariam?
Rosario, Santa Fe, Argentina, Jueves 11 de Agosto de
2005
PEDAGOGIA DA DENÚNCIA
Com
ares de "denúncia", a mídia brasileira elabora a maior campanha dos
últimos tempos para desmoralização do governo, misturando investigações
não concluídas com o sensacionalismo da indistinção entre acusações
verdadeiras e falsas.
Que os países da América Latina - refiro-me ao Brasil - padecem de
corrupção generalizada e de desigualdade abissal, podem ser consideradas
essas algumas de suas características principais. Durante o século XX,
em reação a essa condição explorada e servil da América Latina,
nasceram vários movimentos revolucionários e sociais. No Brasil, a
constituição do Partido dos Trabalhadores por vários intelectuais e militantes, foi um dos marcos dessa reação.
Da criação do PT até os dias de hoje, uma série de simbolismos foram
envolvidos na postura desse partido como reação e alternativa ao
coronelismo dominante: as lutas dos movimentos sindicais, a militância
fervorosa, a associação de estudiosos (historiadores, literatos,
artistas, antropólogos) e a ascenção da figura do então presidente Luís
Inácio Lula da Silva como líder popular foram alguns desses
simbolismos, de um partido que criou para si mesmo a imagem da ética e
da mudança. Na campanha presidencial de Lula contra o adversário José
Serra, uma expressão tornou-se conhecida: tendo a campanha de Serra
utilizado uma atriz brasileira conhecida (Regina Duarte) numa cômica
dramatização que demonstrava o "medo" do Brasil ser governado por Lula
("eu tenho medo", dizia a atriz, a respeito do Brasil ser governado por
"radicais" do PT), a resposta foi incisiva: "a esperança venceu o medo".
A relação do PT com a mídia dominante nunca foi
boa. Seus militantes sempre foram por muitos taxados de "arruaceiros" e
"radicais", e antes da eleição do presidente Lula o "medo" - alardeado
até mesmo na mídia - mostrava o dólar e o chamado "risco Brasil"
subindo vertiginosamente. Antes e após a posse de Lula, já se buscou
taxá-lo de beberrão,
incapaz de governar devido a não ter cursado o ensino superior, bem
como várias investidas tentaram associar o governo Lula a insucessos
políticos e econômicos e a procedimentos totalitários. Antes de sua
eleição, um caso se tornou bem conhecido: a manipulação, pela Rede
Globo, do debate entre Lula e Collor, nas eleições de 1989, em que o
processo de edição, influenciado por diretores da Globo, favoreceu a
vitória de Collor, como já divulgaram vários meios (cito, por ex., o Canal da Imprensa, a entrevista de Paulo Henrique Amorim à TRIP, e várias reportagens do Observatório da Imprensa).
Um desses meios, em particular, levou adiante a questão da edição
que favoreceu a vitória de Collor, ligando o próprio jornalismo
brasileiro às políticas tradicionais do país. Trata-se do documentário "Beyond Citizen Kane",
da BBC, que revela ligações insuspeitas entre políticos da chamada
"direita" brasileira e a mídia, mostrando que vários políticos são
diretamente ligados ao comando de emissoras de televisão e rádio
(seriam por acaso as congratulações de vários dos principais políticos
do Brasil aos 40 anos da Globo?). A pouco, o Observatório da Imprensa
publicou artigo a
esse respeito, demonstrando como políticos do PTB, PL, PFL, PSDB, PPS e
outros partidos são diretamente ligados às concessões brasileiras de TV
e rádio e que, portanto, a difusão pública de informações no Brasil está muito próxima de interesses privados.
É dentro desse contexto que a crise atual brasileira recebe suas
nuances e seu modo de ser. A mídia dominante brasileira sempre foi a
mesma (salvo algumas mudanças e exceções), e a política brasileira
também. Entretanto, algo estranho ocorre na crise do governo Lula, que
diz respeito à visibilidade gradativa dada a todo tipo de denúncia -
fundada ou infundada -, e a acusadores que não teriam o mínimo de
confiabilidade. Como a visibilidade conferida às denúncias de Roberto
Jefferson, declarado e confesso corrupto, ao governo brasileiro (Como
dar confiança insuspeita a um denunciante que, de saída, não é
confiável?). Visibilidade para evidenciar uma crise que, em momentos
anteriores, não foi empregada pela mídia, como o esquecimento e o
"engavetamento" de várias CPI´s, como a da privatização do Banestado, e
a de desvios de recursos em campanhas como a de Cássio Taniguchi,
ex-prefeito de Curitiba.
Essa dupla visibilidade (ou falta) empregada pela mídia demonstra
aspectos interessantes: primeiramente, o valor indiscriminado que é
dado às denúncias, sejam ela verdadeiras ou falsas, e a pressa em que
se busca ligar as denúncias à figura do presidente Lula. Junto a esse
valor indiscriminado da denúncia, as retificações às denúncias falsas
são meras menções, sem ênfase. A grande impressão que é dada ao
espectador é a de que somente há denúncias, a de que elas são todas
fundadas, e a de que o PT está envolvido generalizadamente na corrupção
brasileira. É como se todos os integrantes do PT fossem corruptos, ou
mesmo a maioria dos chamados 'petistas'. Junto aos acontecimentos
estarrecedores que envolvem alguns integrantes do PT (e que são
generalizados ao partido como um todo), outros ocorrem junto a
integrantes de outros partidos, mas que não recebem a mesma
visibilidade pela mídia do que a que tem sido conferida ao PT. Dois
exemplos contemporâneos são os dez milhões de dólares encontrados em malas do deputado João Batista, do PFL, e bispo da Igreja Universal, e o "caixa 2" envolvendo a figura de Eduardo Azeredo,
do PSDB. Não envolveriam esses dois acontecimentos, tanto quanto os
relativos ao caixa 2 empregado por Delúbio Soares, "pontas de iceberg"? Por quê, então, dar visibilidade apenas a um dos "lados"?
A mídia brasileira dominante parece estar padecendo de uma espécie de "pedagogia da denúncia", em que rumores indiscriminados,
junto a indícios verdadeiros, criam um ar de podridão generalizado às
figuras que sempre representaram a oposição brasileira. Os resultados
das investigações - que separariam o que é verdadeiro do que é falso -
são assim ofuscados pela denúncia pura e simples, denúncia que é
empregada desse modo e nesse momento político em
especial, o que gera ao brasileiro uma espécie de mal-estar. Mal-estar
que não é amenizado pelos jornalistas da mídia maior brasileira, que
misturam a denúncia indiscriminada atual a um estranho silêncio frente
ao passado recente. Posição que deveria ser revisada, pois influi
diretamente no que ocorrerá nos próximos anos.
http://www.dialogica.com.ar/archives/004219.php
http://www.dialogica.com.ar/
Rosario, Pcia. de Santa Fe, Argentina, Miércoles 10 de Agosto de
2005
O ESTRANGEIRO O site "O Estrangeiro" (www.oestrangeiro.net) é um coletivo de pessoas interessadas no pensamento de figuras como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Felix Guattari, bem como questões associadas. Foi criado em 1999, e completamente reformulado desde a criação em 2002 de uma lista destinada a discutir as questões-alvo do grupo.
Atualmente
a lista possui mais de 500 associados, das mais diversasáreas. Trata-se
de um espaço livre para discussões, informes e opiniõesrelacionadas à
temática do grupo, onde já foram efetuados a partirdessa dinâmica
informal encontros, grupos de estudo, auxílios emtrabalhos e
intercâmbios diversos. Sobretudo, porém, vê-se construir uma rede de informações poderosa, na qual não importa o lugar de onde se diz, mas sobretudo o quê cada "estrangeiro" tem a dizer.A
proximidade de palavras tão "distantes", desses interlocutoresvirtuais,
engendram muito mais do que "mera" (poderiam dizer alguns)discussão ou
informalidade; fazem ver que de relações baseadas emcoletivos informais
e virtuais, muita coisa real e concreta pode serproduzida. Editado por Marcio Miotto a las 08:45 PM | Palabras: [ 168 ] Comentarios (0) | Archivado en: [ RECURSOS ]
 | sangue | Jul 10, '05 11:24 PM for everyone |
Alguns lugares poderiam ser encaradas como as palavras. Não que as
palavras possam ser traduzidas em imagens, ou as imagens em palavras.
Mas alguns lugares poderiam ser como Nietzsche diz das palavras,
que as únicas possuidoras de importância são as escritas com sangue.
Talvez algumas visões só importam ser vistas com sangue. Talvez a vida
inteira só valha a pena ser vivida se for "com sangue". Esse é o tom
das palavras e o das imagens vistas com sangue, já que traduzir
qualquer das duas a partir da outra, é perder a vida - e o sangue -
implicado.
É possível que advenha daí o terror que admiradores de Nietzsche
possuem pelo comentário e pelas teorias da representação. Elas nada
mais nada menos fazem do que retirar todo o valor que poderia haver num
"acontecimento", para sufocá-lo num artifício de mera correspondência.
É aí que nos damos conta da infeliz tarefa do pensador de gabinete:
aquele que apenas pensa a partir do pensamento dos outros talvez se
assemelha àquele que se resume a ver fotografias, e anseia pelo dia em
que poderá deixar seu sangue manchado no papel.
 Em
meados de 1999, o professor Eduardo Simonini, de Minas Gerais,
organizou uma lista de discussão sobre Deleuze e Guattari chamada " Devires".
Ali conheci muita gente e aprendi muito sobre esses dois pensadores da
caixa de ferramentas, que desde há muito me instigavam. A lista devires,
em determinado momento, dissolveu-se, e por um curto período a lista
mesmo, resistindo à dissolução, alimentou-se pelos "reply for all" de
cada um de seus antigos membros. Respondendo a todos, a lista não
morria, mas de pouco em pouco eu perdia aqueles interlocutores da
devires.
Foi com nostalgia do que eu tinha aprendido - muito! - na devires que criei a lista de discussão " O Estrangeiro",
convidando os antigos listeiros da devires, muitos deles tendo aderido
à nova lista. E foi com nostalgia à antiga lista - e ao lindo nome -
que nomeei esse weblog como "devires", tentativa de dar humilde letra
sem nome de autor a múltiplos atravessamentos que se entrecruzam, formando este corpo, e essas palavras, que se dissolvem tão logo são formuladas...
Tamanha foi minha surpresa ontem, quando encontrei outro " devires"!
Foi Eduardo quem criou o nome, e eu sou um mero imitador! Ou simulacro?
De toda forma, as mais fiéis semelhanças podem dar lugar a diferenças
radicais, e velhas palavras, a novos nomes... O que quero deixar, é a
saudade da 'devires' que me mobilizou a buscar novos devires, e a grata
surpresa de descobrir esse blog sendo simulacro de outro, que se inicia
com uma linda frase de Gilles Deleuze:
"Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver."
 Carrego o peso da lua
Carrego o peso da lua
Carrego o peso da lua
Três paixões mal curadas
Um saara de páginas,
Essa infinita madrugada.
Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono.
A vocês, eu deixo o sono.
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego.
Paulo Leminski
E já dizia Fernando Pessoa:
Sem a loucura, que é o homem?
Mais que a besta sadia,
cadáver adiado que procria?
Curiosa essa proximidade em nosso imaginário entre a lua, a loucura
("lunático"), e tudo aquilo que é Outro, e que ao mesmo tempo fascina.
Talvez residam aí alguns de nossos grandes segredos: o da proximidade
de algo que nos assombra no seio do familiar, e nos induz de modo
permanente a outros espaços que nos arranquem de nós mesmos; o do
fascínio por essa distância lunática que nos é tão distante, e ao mesmo
tempo tão próxima; e o do medo dessa sombra luminosa que inside dentro
de nós mesmos, e arranca-nos de nossa condição de "besta sadia". Essa
alteridade que nos arranca de nós mesmos, eis ela mesma resplandecendo
na noite de nossos sonhos ocultos, ou no símbolo dos olhares
apaixonados...

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