O que eu poderia dizer sobre esse artigo? apenas que
MANDEM A TODO MUNDO QUE LECIONA OU ESTUDA EM UNI-ESQUINAS.
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Demissão
ou não-contratação de profissionais qualificados por parte das
universidades particulares aponta para o descalabro da educação no
Brasil, regida pela concepção do ensino como mercadoria O escândalo dos doutores
RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA
Abro
meu e-mail e deparo com uma chamada intrigante: "A PUC-SP [Pontifícia
Universidade Católica] não discrimina doutores". Quem envia a mensagem
é a Assessoria de Comunicação Institucional (Acipuc): para meu espanto,
fico sabendo que muitas faculdades particulares se recusam a contratar
professores com título de doutor ou, mesmo, os despedem logo após a
defesa. E por quê? Porque um doutor ganha alguns reais a mais que um
mestre, e, este, mais do que um bacharel, licenciado ou especialista.
Dia
seguinte: encontro na Ilustrada uma crônica de Moacyr Scliar, "Crime e
Castigo". O coordenador está passando uma descompostura no professor,
cuja freqüência a um curso de pós-graduação acaba de ser descoberta:
como ousa ele fazer tamanha bobagem? E dá-lhe ameaças! O professor,
atônito, concorda em desistir da pós ou, pelo menos, manter secreto o
seu título quando o obtiver -qualquer coisa, desde que não
perca o emprego.
Os alunos que se danem: desde que paguem suas mensalidades, o que menos importa é a qualidade do que for ensinado
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Conversas com colegas me fazem ver
que o assunto não é, como havia pensado, uma piada de mau gosto. A
"discriminação contra os doutores", por motivos que beiram o ridículo
-mais R$ 10 por hora-aula-, na maioria das vezes é um dos escândalos
mais grotescos que encontramos nesse amontoado de aberrações em que se
converteu o ensino superior pago neste país. Custa a crer que o
aperfeiçoamento de um professor seja causa de demissão ou de
não-contratação; no entanto é o que vem acontecendo em inúmeras escolas
particulares. Aqueles com quem conversei a respeito estão receosos;
temem ser postos no olho da rua se forem identificados. Mas suas
experiências são "amargas", como me disse um deles.
Não basta,
contudo, esfregarmos os olhos e nos indignarmos com esse absurdo. É
preciso refletir sobre o que ele significa, sobre o descalabro que se
instalou no setor pago do ensino superior. O paradoxo torna-se ainda
maior se lembrarmos que, nas últimas décadas,
órgãos como o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico], a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior] e a Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
São Paulo] aplicaram centenas de milhões de reais em bolsas de
mestrado, doutorado e pós-doutorado, visando à capacitação do pessoal
docente e, por extensão, à melhoria do nível de ensino no país.
Apenas
uma fração dos que obtêm esses títulos podem ser absorvidos pelas
universidades públicas ou por escolas particulares que valorizam a
titulação, como as PUCs, FGVs e algumas (poucas) outras. Quando o
recém-doutor envia seu currículo ou vai fazer uma entrevista, descobre
que seu título depõe contra ele, que está "overqualified"...
Sabemos
que, para credenciar um curso, o Ministério da Educação exige, entre
outras coisas, uma certa cota de doutores e mestres no corpo docente;
mas essa cota muitas vezes não é observada ou, quando o é, portadores
de certificados de
especialização (curso no qual não é preciso redigir uma tese) contam
como mestres. Credenciado o curso, as verificações são esparsas e
complacentes, aceitando-se explicações esfarrapadas para a
insuficiência de pessoal titulado.
Estamos
diante de uma concepção do ensino como mercadoria e da mão-de-obra que
produz essa mercadoria como fator meramente quantitativo, cujos custos
devem ser mantidos no patamar mais baixo possível.
A educação
superior está estruturada como uma pirâmide: os alunos da graduação são
educados por alguém que já concluiu seus estudos universitários e que
busca na pós-graduação um complemento para avançar na carreira.
O
título deveria ser um diferencial capaz de decidir uma contratação,
como é nos concursos, mas se verifica o oposto: contanto que sejam
preenchidas as horas-aula, é mais lucrativo pagar menos e selecionar um
professor que tenha apenas bacharelado, argumentando que a "cota" de
titulados (10%, no caso dos doutores) já está preenchida. E os
alunos que se danem: desde que paguem suas mensalidades, o que menos
importa a quem lhes vende um diploma é a qualidade do que for ensinado.
Todos conhecemos "universidades" em que, como nos clubes, para entrar
no campus se passa um cartão pela catraca; basta estar intramuros,
ainda que na lanchonete ou no cabeleireiro, para "ter presença" e não
"estourar em faltas".
Conhecimento novoA
miopia dos donos dessas arapucas tem um componente de ganância e outro
de ignorância, esta a respeito da diferença entre um doutor e um
mestre. Um doutor não é apenas um mestre que escreveu mais uma tese;
pelas regras da academia, ele pode orientar candidatos a ambos os
títulos porque é um especialista em sua área e cujo trabalho foi
avaliado publicamente por uma banca na qual pelo menos dois componentes
devem ser de outra instituição.
Não estou idealizando o valor de um
título: todos sabemos que há teses melhores e piores, departamentos
mais exigentes ou menos. Mas é lícito supor
que alguém que passou pelo duro teste de duas defesas de tese só pode
enriquecer o curso de graduação em que vier a dar aulas.
Outro
equívoco que precisa ser dissipado diz respeito ao "binômio ensino e
pesquisa". Sem querer desqualificar a atividade de pesquisador,
deveríamos reconhecer que muitos professores, titulados ou não, não
possuem vocação para produzir conhecimento novo, que é o que significa
no sentido acadêmico a palavra "pesquisa". Seu talento é transmitir o
conhecimento já existente, algo tão necessário quanto pesquisar,
especialmente nos cursos de graduação, nos quais se trata de equipar o
aluno com o saber já acumulado naquela área de estudo.
Preparar boas
aulas não é o mesmo que pesquisar; se é preciso ler, informar-se,
planejar, isso não significa que quem assim procede seja um
investigador desbravando as fronteiras do conhecimento. Por vezes,
podem coincidir na mesma pessoa um ótimo pesquisador e um excelente
professor; mas isso é raro, e é injusto exigir que
seja sempre assim.
Deveríamos valorizar a figura do bom professor,
empenhado em realizar seu papel da melhor forma possível. Disso,
seguramente, faz parte a busca de aperfeiçoamento por meio dos cursos
de pós-graduação; esses professores deveriam ser incentivados, e não
punidos -é o mínimo que se pode pensar.
O mínimo necessárioDa
mesma forma, os diplomas de nível médio deveriam ser mais valorizados,
melhorando o conteúdo dos cursos que os conferem e desmistificando a
idéia de que somente o diploma universitário conduz a um futuro mais
promissor. Inúmeros alunos de escolas particulares, sobretudo nos
cursos noturnos, não têm condições -nem desejam- de fazer mais do que o
mínimo necessário para obter um diploma. Por que os iludir, fazendo-os
crer que, ao terminar um curso de quarta categoria, estarão dando o
salto para o sucesso profissional?
Não seria mais digno e mais honesto reconhecer que um curso médio consistente teria mais efeito, com um custo muito
menor de tempo e de dinheiro?
Mas
isso implicaria reconhecer de público o que todos sabem: inúmeras
faculdades particulares têm por objetivo principal o enriquecimento dos
seus proprietários, e, para alcançá-lo, estão dispostas a vender um
serviço de qualidade pavorosa.
O nível do que ali é ensinado só não
é pior devido à dedicação de muitos professores, que consideram sua
missão utilizar a disciplina que lecionam, mesmo que seja de cunho
"técnico", para formar, na parca medida do possível, o espírito dos
seus alunos. É indigno que seus empregadores faturem milhões
economizando tostões.
Para terminar, uma sugestão concreta: que, no
projeto de reforma universitária atualmente em debate, sejam
introduzidos dispositivos que favoreçam a maior capacitação do corpo
docente, usando os tradicionais instrumentos empregados pelos
cavaleiros para fazer andar suas montarias -a cenoura e o chicote.
Cenoura:
vantagens aos cursos que tenham maior proporção de professores
titulados;
chicote: sanções disciplinares e monetárias (provavelmente as únicas
eficazes, nesse território) contra os que, a cada ano, não aumentarem
aquela proporção até chegarem a um nível aceitável de titulados -por
exemplo, 50% de mestres e 30% de doutores. Quem sabe, ameaçando mexer
no bolso dos empresários do ensino, o escândalo da "discriminação dos
doutores" venha a se tornar mais uma das vergonhosas lembranças que o
Brasil esconde nos desvãos da sua memória. Por enquanto, ele é uma
chaga aberta e fede a gangrena.
Renato Mezan é professor titular da PUC-SP, autor de "Freud - A Trama dos Conceitos" (Perspectiva), entre outros livros.